Krebs + Arquitetura Paisagística e Paisagismo

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22/08/2616 min de leitura

Como pensamos um projeto

Todo projeto começa com um desejo do cliente. Mas um bom projeto de paisagismo responde, ao mesmo tempo, a uma série de fatores que quase nunca aparecem no briefing. Neste texto, João Wouters, diretor criativo da KREBS+, abre o processo por trás do desenho: a leitura do terreno, a tríade do belo, do verdadeiro e do bom, e a atmosfera que nasce quando os três agem juntos.

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Mural de croquis no escritório. Fotografia de Lucas Daneris.

por João Wouters

Todo projeto começa com um desejo. O cliente chega com uma vontade, uma necessidade, às vezes só uma intuição do que quer para aquele espaço, e esse ponto de partida é, e sempre será, o nosso norte. É dali que tudo nasce. Mas o que eu gostaria de explicar aqui é o que vem junto com essa necessidade. Porque um bom projeto de paisagismo nunca responde só ao que foi pedido. Ele responde, ao mesmo tempo, a uma série de fatores que o cliente muitas vezes nem percebe. É esse trabalho anterior ao desenho que separa um jardim bonito de um lugar que funciona, dura e emociona.

Na KREBS+, ele se apoia em alguns pilares que percorrem todos os nossos trabalhos, independentemente da escala, do orçamento ou do tipo de cliente. Vou destrinchar cada um.

Primeiro, a gente escuta o terreno

Antes de qualquer desenho, fazemos a leitura do lugar, o que chamamos de terroir do projeto. É a palavra que o vinho empresta, a ideia de que um lugar imprime, naquilo que nasce dele, um caráter que não se repete em nenhum outro canto. Com o espaço externo é igual.

Isso significa ir a fundo nas condições reais do terreno, sua paisagem natural, entorno e visuais. Estudamos as horas de sol ao longo do dia e do ano, porque é a insolação que nos diz, na prática, quais espécies vão prosperar ali e quais vão definhar. Observamos o vento e o microclima específico daquele lote, que pode ser bem diferente do clima da cidade como um todo. E analisamos a vegetação que já existe no local e no entorno, porque ela é a melhor consultora que temos, já que revela o que se adaptou àquela região, o que é nativo, o que pertence àquele ecossistema.

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(Leitura do terreno em visita de campo. Fasano Las Piedras, José Ignacio, Uruguai)

Essa escuta orienta decisões que vão muito além da estética. Trabalhar com espécies nativas e adaptadas significa um jardim mais resiliente, com menos manutenção, menos consumo de água e mais integração com a fauna local. O mesmo princípio vale para os materiais, sempre que possível, buscamos os da própria região, não só por coerência ambiental, mas porque reforçam a cultura e a identidade.

Para mim, essa leitura não é uma etapa técnica entre outras. É o gesto mais humilde e mais decisivo do ofício, reconhecer que o lugar já estava falando antes da gente chegar, e que boa parte do nosso trabalho é saber escutar.

Depois, três compromissos que não negociamos

Construímos cada projeto perseguindo três qualidades ao mesmo tempo, o que eu costumo chamar, “roubando” da filosofia clássica, a tríade do belo, do verdadeiro e do bom.

O belo. Todos os dias somos chamados por coisas belas, um objeto, um lugar, um prato, um jardim. E só chegamos a elas pelos sentidos; como ensina Tomás de Aquino, nada alcança o intelecto sem antes passar pela experiência sensível. Um projeto, portanto, precisa atrair antes de convencer, precisa ter riqueza sensorial intencional. A beleza é a porta de entrada, é o que faz alguém parar diante do espaço, querer usá-lo, cuidar dele e se orgulhar dele.

Por isso não a tratamos como acabamento ou enfeite, mas como a primeira responsabilidade de quem projeta. Um espaço com proporção, ritmo e equilíbrio, que desperta os sentidos em vez de apenas se mostrar, é um espaço que não dá vontade de sair.

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(Sandro Botticelli. O Nascimento de Vênus, c. 1485)

O verdadeiro. Em todo lugar por onde passamos fazemos avaliações constantes, quase sempre sem perceber. Julgamos a qualidade dos espaços e das sensações que eles nos dão. No desenvolvimento de um projeto acontece o mesmo. Desde as primeiras apresentações, o cliente analisa o que vê, monta roteiros possíveis, imagina-se circulando e vivendo os ambientes propostos. Quando a proposta faz sentido e desperta identificação, seguimos adiante. Mas o momento decisivo vem muito depois, quando a obra está concluída e o espaço é finalmente vivido. Como lembra Pallasmaa, o sabor da maçã não está na fruta, mas no contato dela com o palato. A verdade de um projeto é exatamente assim, não está no desenho que encanta na tela, está no encontro entre o espaço e quem o habita.

É ali que o projeto é posto à prova. Se a experiência entregue corresponde ao que foi prometido desde o início, temos um projeto verdadeiro. Se não, temos apenas uma representação sedutora, como o prato escolhido pela foto que decepciona quando chega à mesa. E o que não é verdadeiro carrega uma rachadura, pode encantar na apresentação, mas o tempo, que é quem de fato julga um espaço, termina por revelá-la.

Aqui mora um dos nossos maiores diferenciais, uma etapa que costuma surpreender quem chega até nosso escritório. Desde o começo do desenvolvimento trabalhamos com estimativas de custo e análises de viabilidade. Não deixamos o orçamento para o fim, como uma má notícia depois que todos já se encantaram com a proposta. Para nós, desenho e viabilidade caminham juntos, porque um projeto que não cabe no orçamento ou que não pode ser executado como foi concebido promete uma realidade que não vai entregar. Ser verdadeiro é garantir que aquilo que desenhamos tenha condições reais de ser construído e vivido, dentro dos recursos, das expectativas e dos objetivos de cada cliente.

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(Caravaggio. A Incredulidade de São Tomé, c. 1602)

O bom. Acreditamos que toda pessoa busca algum bem, ainda que por caminhos diferentes. E uma coisa é boa quando cumpre a sua finalidade, quando dá a cada um aquilo que lhe convém. Quem investe em espaços externos não procura apenas um jardim ou uma área de lazer, busca uma experiência capaz de mudar a maneira como habita o próprio dia. Um projeto, portanto, não é bom porque agrada esteticamente, mas porque serve a quem o utiliza.

Esse bem assume formas distintas conforme o contexto. Quando trabalhamos com uma incorporadora, o paisagismo deve agregar valor ao empreendimento, qualificar a experiência dos futuros moradores e contribuir para a singularidade do produto. Quando trabalhamos com uma família que nos escolhe para projetar seu jardim, buscamos um espaço efetivamente vivido, um lugar onde as pessoas gostem de ficar, onde a refeição se estenda pela tarde e as crianças cresçam ao redor das mesmas vegetações, e onde, com o tempo, se acumulem memórias.

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(Édouard Manet. A Família Monet no Jardim, 1874)

Mas há um beneficiário que vai além de quem encomenda o projeto, e que está presente em todos eles mesmo quando não aparece no briefing: o meio ambiente. Todo projeto paisagístico é, na prática, um organismo vivo. Ele abriga espécies, influencia o microclima, participa dos ciclos da água e estabelece relações com os ecossistemas ao seu redor. Por isso, paisagismo e ecologia caminham cada vez mais juntos, e as soluções baseadas na natureza deixam de ser diferenciais para se tornarem requisitos fundamentais.

Projetar bem é, no fim, reconhecer que existe uma só ordem, cuidamos ao mesmo tempo das pessoas e do ambiente que as sustenta, porque ambos pertencem à mesma teia. No longo prazo, o benefício para a natureza e o benefício para as pessoas não são duas coisas distintas, são o mesmo bem.

E o mesmo vale para tudo o que viemos dizendo. A beleza que atrai, a verdade que se confirma quando o espaço é vivido e o bem que serve a quem o habita não são três exigências separadas que tentamos conciliar. São três faces de um único projeto bem feito. Onde uma falta, as outras duas não se sustentam por muito tempo.

O que tudo isso faz nascer: a atmosfera

Chego agora no que considero o coração de todo o processo. Porque, por mais que esses pilares importem isoladamente, eles ainda são estrutura, dizem o que um espaço deve ser, mas não o que ele faz com quem entra nele. E é aí que aparece a atmosfera. Ela não é um quarto pilar somado aos outros três, nem o que os une, isso eles já fazem entre si. A atmosfera é o que emana deles quando agem juntos, a presença do espaço se fazendo sentir no corpo de quem chega.

Por isso ela é a primeira coisa a acontecer e a última a se explicar. É o que a gente sente num instante, antes de a razão processar, o que se percebe nos primeiros segundos ao entrar num lugar, as sensações que se acendem enquanto se caminha por ele. E nunca vem de um elemento só. Nasce de um conjunto agindo ao mesmo tempo, a forma como a luz incide, a sombra, as texturas, o som, a escala, a materialidade, o ritmo do percurso, a temperatura, o cheiro da vegetação, o jeito como o tempo parece passar. É a soma disso tudo virando uma sensação única, que a pessoa não consegue descrever, apenas sente.

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(Claude Monet. Nenúfares, c. 1914–1926)

Mas uma atmosfera não se improvisa, ela só aparece quando há uma boa narrativa por trás. No fundo, os projetos são histórias que contamos. Cada um tem começo, sequência, momentos de surpresa e de pausa. Quando desenhamos um percurso e decidimos o que o visitante encontra primeiro e o que descobre depois, quando escolhemos para onde o olhar deve ser atraído, estamos narrando. É a narrativa que transforma um terreno bem resolvido tecnicamente num lugar com personalidade. Sem ela, sobram os pilares e falta o que os faz pulsar.

De onde vem esse olhar

Preciso, aqui, falar por mim, não pela KREBS+. Esse jeito de pensar vem menos do paisagismo e mais das coisas que gosto, e quase sempre das artes.

Tolkien (escritor britânico) me mostrou o que é construir um mundo, um lugar capaz de agir sobre quem chega. Li O Senhor dos Anéis algumas vezes, e em todas, ao chegar em Lothlórien, senti meu corpo descansar junto com o dos personagens. Ali o tempo parece correr mais devagar, a vegetação é abundante, tudo é cuidado e belo, e a leitura inteira desacelera, como se a gente também pudesse respirar. Percebi que um lugar fala com a gente antes de qualquer apresentação.

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(Lothlórien, reino élfico de J. R. R. Tolkien. Arte de Gus Hunter, Wētā Workshop)

Dostoiévski (autor russo) me trouxe quase o contrário, o olhar para dentro das pessoas, e foi nele que vi espaço e estado de espírito se confundirem. Em Crime e Castigo, o quarto de Raskólnikov é minúsculo, um cômodo de teto baixo que mais parece um armário, e aquele aperto não cerca só o corpo do personagem, parece apertar a própria cabeça dele (a do leitor junto). Um espaço mal resolvido não é só desconfortável, ele age sobre o espírito de quem está ali. E lembra que todo espaço é, no fim, feito para gente.

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(Raskólnikov em seu quarto. Xilogravura de Fritz Eichenberg para Crime e Castigo, 1938)

Mas talvez quem melhor traduza o que procuro seja o Miyazaki (diretor do Studio Ghibli), O Castelo Animado é o meu filme favorito do estúdio, sempre foi, e quando penso em atmosfera é a ele que minha cabeça volta primeiro, o que já diz alguma coisa. O castelo se desloca, muda de lugar, e a cada lugar o ambiente em volta dos personagens se transforma por inteiro, a luz, as cores, a sensação. Nada ali precisa ser explicado, a gente simplesmente sente que aquele lugar agora é outro. Foi vendo aquilo que entendi uma coisa que carrego para os projetos, a atmosfera não está nas coisas em si, está no modo como elas se combinam e envolvem quem está presente.

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(O castelo a caminho de outro lugar. O Castelo Animado (2004), direção de Hayao Miyazaki, Studio Ghibli.)

Fora esses professores, fui aprendendo com arquitetos que partem da fenomenologia, se perguntando primeiro o que quem caminha por aquele espaço vai sentir, que sensações o lugar desperta, para depois pensar em desenho, materialidade e espécies, nunca o contrário. E, na base de tudo, a filosofia clássica. Não tenho formação nela, cheguei como leitor curioso e meio sem norte, mas foi ali que encontrei a tríade que organiza este texto, o belo, o verdadeiro e o bom. Ela não me trouxe ideias novas, mas deu nome para algo que eu já intuía e não sabia ordenar nem explicar.

É essa mistura, e ela é pessoal mesmo, que molda o meu olhar como diretor criativo da KREBS+. Um olhar que amadureceu com o tempo e acabou se espalhando pelo escritório, e que talvez explique por que insisto tanto em pensar a arquitetura de forma ampla. Projeto bom com olhar estreito, para mim, não existe. Ele será sempre uma tentativa de reunir o que costuma ficar separado, o desenho e o contexto, as pessoas e o lugar, porque é dessa soma que nascem lugares.

Por que isso importa para quem nos contrata

Quando alguém nos procura, está confiando à gente muito mais do que a escolha de algumas plantas. Está confiando um pedaço da sua casa, do seu empreendimento, da sua vida. Por isso levamos esse processo a sério, o briefing nos diz o que o cliente quer, mas é todo esse trabalho de leitura, de viabilidade, de intenção e de narrativa que define como aquele desejo se transforma num lugar para se viver.

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(Jardim FLV, Rio de Janeiro. Paisagismo: KREBS+. Arquitetura: Bernardes. Fotografia: Lucas Daneris)

Cada projeto, naturalmente, puxa mais para um lado. Um terreno pequeno e de orçamento enxuto não abre as mesmas possibilidades de um grande empreendimento, e seria desonesto fingir o contrário. Mas as premissas não mudam com a escala. Não importa o tamanho nem o cliente, escutamos o terreno e perseguimos a beleza, aquilo que atrai e convida a ficar; garantimos a verdade, a promessa que se confirma quando o espaço é finalmente vivido; buscamos o bem, para as pessoas e para o meio que as sustenta. E costuramos tudo isso numa narrativa que dá ao lugar uma atmosfera própria. O que muda de um projeto para o outro é a dosagem, nunca o princípio.

É assim que pensamos projeto na KREBS+. Não como um cenário para impressionar à primeira vista, mas como um lugar belo, verdadeiro no uso e generoso com quem o habita e com o que está ao redor. Um lugar com atmosfera própria, feito para durar.

Perguntas Frequentes

Começa pela escuta do terreno. Antes de qualquer desenho, a KREBS+ estuda insolação, vento, microclima, visuais e a vegetação que já existe no lugar. É essa leitura, que chamamos de terroir do projeto, que orienta as decisões de espécies, materiais e implantação.

Porque elas já estão adaptadas ao clima e ao solo da região. Isso gera um jardim mais resiliente, com menos manutenção, menor consumo de água e mais integração com a fauna local. A vegetação do entorno é a melhor consultora que um projeto pode ter.

Um bom projeto reúne três qualidades ao mesmo tempo. Precisa ser belo, atrair pelos sentidos e convidar a ficar. Precisa ser verdadeiro, entregar na obra o que prometeu na apresentação. E precisa ser bom, servir a quem usa o espaço e ao meio ambiente que o sustenta.

Desde o começo. Na KREBS+, estimativas de custo e análises de viabilidade caminham junto com o desenho, e não aparecem só no final como uma má notícia. Um projeto que não cabe no orçamento promete uma realidade que não vai entregar.

É a sensação que um espaço provoca em quem entra nele, antes mesmo de a razão processar. Nasce da combinação de luz, sombra, texturas, som, escala, cheiro e ritmo do percurso agindo juntos. A atmosfera não se improvisa, ela surge quando há uma narrativa por trás do projeto.

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